IA cria “eleitores sintéticos” e ameaça pesquisas eleitorais
A inteligência artificial está entrando em uma nova etapa das campanhas eleitorais de 2026, não apenas na produção de vídeos, textos e imagens, mas também na própria tentativa de simular o comportamento do eleitor. A criação de “eleitores sintéticos”, personas produzidas por IA para representar diferentes perfis da sociedade, promete reduzir custos e acelerar pesquisas, mas também levanta uma questão central: até que ponto uma máquina consegue reproduzir a opinião de uma pessoa real?
O alerta foi apresentado por pesquisadores do Laboratório Interdisciplinar de Inteligência Artificial para Métodos, Democracia e Sociedade (LabIIA) em estudo publicado originalmente pelo The Conversation e republicado por veículos brasileiros. O trabalho é assinado por Adriana Lima de Oliveira, Cláucia Piccoli Faganello e Rafael Cardoso Sampaio.
Pesquisa com IA custa menos, mas levanta dúvidas
A utilização de eleitores sintéticos ganhou espaço justamente pela promessa de velocidade e economia. Em vez de reunir pessoas para entrevistas e grupos de discussão, campanhas podem criar perfis artificiais e submetê-los a diferentes mensagens políticas.
O problema está na diferença entre simular uma opinião e medir uma opinião real.
Segundo o estudo, empresas do setor brasileiro passaram a oferecer personas sintéticas com alegações de acurácia entre 80% e 89%, mas os pesquisadores ressaltam que esses índices ainda não foram confirmados por auditorias independentes.
Na prática, uma campanha pode testar uma determinada mensagem diante de centenas ou milhares de perfis artificiais em poucos minutos, sem precisar mobilizar eleitores de verdade.
O risco da IA dizer ao político aquilo que ele quer ouvir
Um dos principais problemas apontados pelos pesquisadores é o chamado comportamento de bajulação dos modelos de inteligência artificial.
Sistemas generativos podem adaptar suas respostas ao interlocutor. Isso significa que um modelo pode apresentar respostas diferentes dependendo da forma como a pergunta é formulada ou das características políticas atribuídas ao eleitor sintético.
O risco, segundo o estudo, é que o marqueteiro deixe de ouvir uma opinião divergente e passe a receber da máquina justamente a confirmação daquilo que já pretendia acreditar.
Nesse cenário, a campanha pode acabar otimizando sua estratégia para um eleitor que não existe.
Bots também podem contaminar pesquisas reais
O problema não estaria restrito aos eleitores sintéticos utilizados internamente por campanhas.
Pesquisadores também identificaram riscos de bots participarem de pesquisas online se passando por pessoas reais, alterando artificialmente os resultados.
O estudo cita trabalhos do pesquisador Sean Westwood, da Universidade Dartmouth, nos Estados Unidos, que demonstraram a capacidade de agentes artificiais de se passar por seres humanos em pesquisas. A preocupação é que um número relativamente pequeno de respostas automatizadas possa ser suficiente para alterar determinadas sondagens.
O fenômeno é conhecido como “silicon sampling”, ou amostragem artificial. O Pew Research Center, um dos principais institutos de pesquisa dos Estados Unidos, já manifestou resistência ao uso de amostras geradas por IA por causa do risco de estereotipar grupos e reduzir artificialmente a diversidade das opiniões.
O problema nas Eleições 2026
A combinação desses fatores cria um circuito potencialmente perigoso.
Uma campanha pode testar suas mensagens com eleitores artificiais, receber respostas que confirmam suas expectativas e, posteriormente, acompanhar pesquisas de opinião que também podem estar vulneráveis à presença de respostas automatizadas.
Com isso, a máquina pode perguntar à própria máquina e depois interpretar a resposta como se viesse da sociedade.
Para os pesquisadores, esse processo ameaça justamente uma das principais funções das pesquisas de opinião, dar voz ao público e identificar divergências que poderiam passar despercebidas pelos grupos políticos.
TSE já regulamentou o uso de IA
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) atualizou as regras para as eleições de 2026 e estabeleceu restrições para conteúdos sintéticos produzidos ou modificados por inteligência artificial.
A Resolução TSE nº 23.755/2026 determina, entre outras medidas, que conteúdos sintéticos utilizados em propaganda eleitoral sejam identificados de maneira explícita. A norma também estabelece restrições para determinados conteúdos gerados por IA e prevê medidas contra sua utilização irregular.
O próprio TSE destaca que as regras de 2026 ampliaram o combate à desinformação e passaram a tratar de forma mais específica do uso de inteligência artificial no processo eleitoral.
Entretanto, o estudo do LabIIA chama atenção para uma área menos explorada da regulamentação, o uso da IA nos bastidores das campanhas e a possível contaminação das pesquisas por respondentes artificiais.
Conteúdo político produzido por IA já circula em grande escala
Outro ponto levantado pelos pesquisadores é a expansão do conteúdo político sintético nas redes sociais.
Segundo o levantamento citado no estudo, centenas de casos de conteúdo político produzido ou manipulado por IA já haviam sido identificados no Brasil. Parte significativa deles não apresentava indicação clara de que havia sido produzida artificialmente.
O desafio, portanto, não está apenas em identificar um vídeo falso ou uma voz manipulada. A questão passa também pela capacidade de preservar a qualidade das informações utilizadas por partidos, candidatos, institutos de pesquisa, jornalistas e eleitores.
Três medidas são defendidas pelos pesquisadores
O estudo aponta três caminhos principais para enfrentar o problema:
- Ampliar a regulamentação eleitoral, incluindo o uso de eleitores sintéticos e a possível contaminação de pesquisas por bots;
- Criar auditorias independentes para verificar se os perfis artificiais realmente representam os grupos que dizem representar;
- Exigir transparência nas pesquisas online, com informações sobre as ferramentas utilizadas para impedir respostas automatizadas.
A preocupação vai além de uma eleição específica. Se pesquisas artificiais começarem a produzir resultados considerados pouco confiáveis, o efeito pode atingir inclusive levantamentos realizados de maneira tradicional.
A disputa eleitoral pode ser afetada por um eleitor que não existe
O principal alerta dos pesquisadores é que a tecnologia pode criar um paradoxo: quanto mais eficiente for a máquina em imitar determinados comportamentos, maior pode ser a dificuldade de distinguir uma opinião humana de uma resposta artificial.
Nas eleições, isso pode influenciar desde a escolha de temas de campanha até discursos, anúncios e estratégias de comunicação.
A questão central passa a ser, portanto, quem está sendo ouvido pelas campanhas quando elas consultam uma inteligência artificial para descobrir o que o eleitor pensa?
Para os autores do estudo, a democracia depende da capacidade de escutar pessoas reais, inclusive aquelas que discordam, surpreendem e rejeitam as expectativas dos políticos. Se essa escuta for substituída por simulacros, a tecnologia poderá deixar de ser apenas uma ferramenta de análise e passar a interferir na própria representação da opinião pública.
Fonte: estudo de pesquisadores do LabIIA, publicado originalmente no The Conversation e republicado no Brasil. A análise foi assinada por Adriana Lima de Oliveira, Cláucia Piccoli Faganello e Rafael Cardoso Sampaio.
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