Por que as mineradoras brasileiras estão preferindo reformar minas velhas a abrir novas?
O acesso ao capital consolidou-se como o principal fator de risco e oportunidade para o setor mineral brasileiro em 2026. Segundo estudo da EY, a seletividade dos investidores e o custo elevado do dinheiro forçaram os executivos locais a adotarem uma postura pragmática, priorizando projetos brownfield e M&As em vez de explorações do zero.
Enquanto a complexidade operacional lidera as preocupações globais devido ao exaurimento de depósitos superficiais, o Brasil emerge como um destino estratégico friend-shore para minerais críticos, apoiado por sua matriz energética limpa e neutralidade geopolítica – fatores que agora pesam tanto quanto o balanço financeiro nas decisões de alocação de recursos.
“O capital para investimentos está mais seletivo e, consequentemente, mais caro”, afirma Afonso Sartorio, líder de Energia e Recursos Naturais da EY no Brasil.
Em um ambiente de juros elevados e maior escrutínio dos investidores, os projetos greenfield – que são os construídos do zero, em áreas inexploradas – passaram a enfrentar barreiras mais altas.
Isso, dado que são projetos que exigem licenciamentos mais longos, infraestrutura a ser criada inteiramente e retornos que demoram mais para se materializar. Projetos brownfield, ao contrário, partem de uma base existente: há estradas, energia, conhecimento geológico do depósito e, muitas vezes, relações já estabelecidas com comunidades locais.
Além do brownfield, as fusões e aquisições (M&As) também ganharam espaço: 34% dos respondentes brasileiros apontaram essa estratégia como opção de alocação de capital, índice também acima da média global de 25%. Juntos, os dois movimentos revelam uma preferência clara por crescimento inorgânico ou incremental, em detrimento da construção de ativos inteiramente novos.
Há também uma razão técnica e inevitável por trás da preferência por minas já abertas. Os depósitos superficiais, mais fáceis e baratos de explorar, foram majoritariamente extraídos ao longo de décadas de operação intensiva. O que resta, em grande parte, está mais fundo.
“Os corpos minerais estão onde estão. Por isso, a complexidade está cada vez maior e assim será”, diz Sartorio. A complexidade operacional ocupa o quinto lugar no ranking brasileiro – e o primeiro no ranking global – e reflete exatamente esse desafio: regulação mais exigente, depósitos mais profundos e, portanto, custos mais elevados para cada tonelada extraída.
Desenvolver uma mina nova, nesse contexto, significa partir do zero diante de um problema que já existe na mina antiga. Ampliar ou modernizar uma operação conhecida permite diluir esses custos sobre uma infraestrutura já amortizada.
O estudo Top 10 business risks and opportunities for mining and metals foi realizado pela EY entre junho e julho de 2025, com 500 líderes seniores de empresas com receita mínima de US$ 1 bilhão. O recorte brasileiro representa cerca de 10% da amostra.
ESG deixou de ser algo opcional
A agenda ambiental, social e de governança (ESG) reforça essa lógica, já que ao abrir uma nova mina hoje significa atravessar um processo de licenciamento mais rigoroso, com exigências ambientais crescentes, consultas obrigatórias a comunidades e compromissos climáticos que fazem parte do escopo desde o primeiro rascunho do projeto.
“Hoje, não há mais nenhum rascunho de projeto que não considere essas temáticas”, aponta Sartorio.
Para operações já existentes, parte desse caminho já foi percorrido – o que representa uma vantagem competitiva real. A licença para operar, que aparece em terceiro lugar no ranking brasileiro, é mais fácil de manter do que de conquistar do zero.
Geopolítica abre uma janela para os minerais críticos brasileiros
Em meio a tensões entre grandes potências e reorganização das cadeias de suprimentos, o país reúne atributos que o tornam relativamente mais atrativo: reservas de minerais críticos ainda subexploradas, localização fora de zonas de conflito e uma matriz energética mais limpa que a de muitos concorrentes.
“O capital global tem incorporado cada vez mais critérios geopolíticos em suas decisões de alocação, priorizando ativos em jurisdições consideradas geopoliticamente alinhadas”, explica Marcelo Andrade, sócio de Estratégia e Transações da EY-Parthenon.
Nesse tabuleiro, o Brasil aparece como um destino de menor risco, algo que aumenta o interesse em expandir operações já existentes no país, em vez de buscar novos territórios.
A janela, porém, exige posicionamento estratégico.
“É preciso equilíbrio: cautela diplomática, mas também visão estratégica, porque os minerais críticos serão fundamentais para diversas indústrias no futuro”, alerta Andrade.
O que esperar das mineradoras em 2026
Diante desse quadro, a mineração brasileira deve seguir um caminho de crescimento mais cauteloso e menos espetacular, mas potencialmente mais sustentável. A combinação de capital seletivo, depósitos mais complexos e exigências ESG crescentes cria um ambiente em que eficiência operacional vale mais do que expansão a qualquer custo.
Para 62% dos executivos brasileiros ouvidos pela EY, a resposta às pressões externas – como o aumento de tarifas comerciais – passa pela diversificação da cadeia de suprimentos. Outros 53% pretendem absorver custos adicionais por meio de ganhos de eficiência interna.
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