Entrevista revela que Lula assumiu riscos ao insistir em Messias, segundo líder do governo
O Senado impôs uma derrota histórica ao governo ao rejeitar a indicação de Jorge Messias. Houve falha na articulação?
O povo brasileiro, em 2022, escolheu um presidente com uma opção política e elegeu um Congresso com outra opção política, com campo majoritário conservador. A base de apoio ao presidente é minoritária tanto na Câmara quanto no Senado. Hoje, no Senado, a base mais identificada com o bolsonarismo chega próxima de 35 senadores. A votação ocorreu sob esse contexto e foi pressionada pelo calendário eleitoral.
Líderes da base falavam em 43 a 45 votos favoráveis, mas o resultado foi de 34. O que explica a diferença?
Antes do jogo do Flamengo, eu nunca digo que o Flamengo vai perder. Não fica bem para líder do governo vaticinar um resultado desfavorável quando está buscando um resultado favorável. Mas sabíamos da enorme dificuldade. Eu sabia disso desde novembro, desde a nomeação. Quanto mais se aproximava do período eleitoral, mais essa votação era pressionada. O que foi avaliado não foi o currículo, nem o notório saber, nem a reputação do ministro Messias. O que foi considerado foi a antecipação da disputa eleitoral.
Quando ficou claro que o governo poderia perder?
Havia posições distintas. Eu tinha um termômetro mais desfavorável. Comecei a sentir isso com mais intensidade na Comissão de Constituição e Justiça. Quando saiu o resultado de 16 votos, já não era um cenário confortável. O placar já indicava uma dificuldade maior do que em outras indicações recentes. No dia da votação, pela manhã, pedi para checar a planilha que apontava entre 43 e 45 votos. Eu adverti que ela não estava correta, que havia inconsistências, e que precisávamos checar alguns nomes. Cheguei a ligar para o ministro José Guimarães apontando as dificuldades. Mas havia um termômetro da maioria dos líderes de que o número existia.
Diante desse cenário, o governo chegou a cogitar adiar a votação ?
Não chegamos a cogitar. Eu dialoguei sobre essas dificuldades. Mas houve uma avaliação da maioria dos líderes de que os contatos seriam suficientes para alcançar o número. Prevaleceu a decisão de seguir.
O senhor chegou a alertar o presidente Lula ?
O que eu tinha que falar, eu falei antes. Eu disse ao ministro Messias, um mês antes, que, na minha percepção, nós não tínhamos o número. Conversei com o presidente da República, com a ministra Gleisi Hoffmann, com o líder Jaques Wagner e com outros colegas líderes. Faço parte do time que perdeu e assumo a responsabilidade coletiva. Mas a dificuldade foi apontada mais de uma vez.
Lula tinha consciência do risco de derrota?
O presidente tinha consciência do risco. E houve uma decisão consciente de levar a indicação até o fim. Uma decisão correta, na minha avaliação. A indicação ao STF é uma prerrogativa do presidente da República.
Após a votação, surgiram relatos de que partidos da base teriam contribuído para a derrota. Houve traição?
A resposta a isso não nos leva a lugar nenhum. A gente tem que colocar isso dentro de um contexto. Por mais dramático que tenha sido, nós temos que deslocar esse evento para a fotografia geral. Uma semana antes, nós contamos com o apoio de parlamentares desses partidos em votações de interesse do governo. Então eu não posso ficar agora procurando quem traiu ou quem não traiu. Esse tipo de monitoramento não leva a nada.
Há relatos de atuação de Davi Alcolumbre contra o governo.
Ele conversou comigo duas vezes antes da votação e não pediu voto contra. Agora, há uma realidade que não dá para ofuscar: o Davi é um dos maiores articuladores da história do Congresso. Sem a presença dele, sem a participação dele, nós não conseguimos aprovar matéria no Senado. É necessário diálogo com ele.
Alguns aliados classificaram esse episódio como a maior crise do governo Lula. O senhor concorda?
Não sei de onde estão tirando essa besteira. Mas eu não quero acreditar que alguém do nosso campo vá fazer coro ao discurso da extrema direita, “acabou o governo Lula 3”. Não acabou.
Depois da rejeição, o governo deve indicar um novo nome ao STF neste ano?
Sim. O presidente tem que exercer sua prerrogativa.
Pode ser Rodrigo Pacheco ou uma mulher?
Ouvi que o Pacheco disse que não está mais disponível. Mas, independentemente disso, essa é uma decisão do presidente.
A derrubada do veto da dosimetria indica perda de controle do governo?
A prioridade estava centrada na indicação ao Supremo. Além disso, havia uma realidade dada: o projeto já tinha sido aprovado com ampla maioria no Congresso. A votação agora praticamente repetiu aquele placar.
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