Quem foi o Barão de Itararé, o jornalista irreverente que enfrentou presidentes com humor político
O jornalista Apparício Torelly, conhecido nacionalmente como Barão de Itararé, volta ao centro do debate político e cultural com o documentário exibido pelo canal Canal Curta!, que revisita sua trajetória no período do governo de Getúlio Vargas. A produção resgata a história de um dos nomes mais irreverentes da imprensa brasileira, que fez do humor uma arma contra o autoritarismo e as contradições do poder.
Em 1934, Torelly foi sequestrado por oficiais da Marinha após publicar um folhetim relembrando a Revolta da Chibata, liderada por João Cândido. Espancado, teve a cabeça raspada e foi abandonado em um terreno baldio. No mesmo dia, voltou à redação e pendurou um cartaz na porta com a frase “Entre sem bater”. O episódio consolidou sua imagem de provocador que transformava humilhação em manchete.
Origem do Barão de Itararé
O título que o consagrou nasceu de um episódio que nunca ocorreu. Durante a Revolução de 1930, era aguardada uma batalha decisiva em Itararé, no Paraná, entre forças governistas e tropas ligadas a Vargas. O confronto foi anunciado como o mais sangrento da América do Sul, mas não aconteceu porque o então presidente Washington Luís foi deposto antes.
Torelly então se autoproclamou “Barão de Itararé”, nobre de uma batalha inexistente. A ironia simbolizava, segundo ele, o país das promessas não cumpridas.
Humor como enfrentamento político
Fundador do jornal A Manha, criado em 1926, o Barão satirizava manchetes, distorcia nomes de autoridades e desmontava discursos oficiais com trocadilhos. Vargas virou “Getúlio Dor Neles Vargas” e o chefe de polícia do Estado Novo, Filinto Müller, foi apelidado de “Filinto Mula”.
Frases históricas eram parodiadas com precisão. O lema positivista de Auguste Comte foi transformado em crítica à elite política, enquanto o slogan integralista de Plínio Salgado também virou alvo de deboche.
O jornal circulou de forma irregular até o fim dos anos 1950 e se tornou referência de humor político no Brasil. A proposta era clara: usar o riso como forma de resistência.
Prisão, resistência e convivência com escritores
Simpatizante do Partido Comunista Brasileiro, Torelly foi preso após o fechamento da Aliança Nacional Libertadora. Na detenção, dividiu cela com Graciliano Ramos, que registraria a experiência em Memórias do Cárcere.
Mesmo em meio à repressão, mantinha o humor. Ao ser informado de que estava “convidado a depor”, respondeu perguntando se seria para depor o governo. O riso, ali, funcionava como mecanismo de sobrevivência e crítica.
Da política institucional à cassação
Com o fim do Estado Novo, elegeu-se vereador no Rio de Janeiro em 1946 pelo PCB. Em meio a denúncias sobre leite adulterado e falta de água, lançou o slogan “Mais água! Mais leite! Mas menos água no leite!”.
No ano seguinte, o Tribunal Superior Eleitoral cassou o registro do partido e ele perdeu o mandato. Despediu-se dizendo que deixava a vida pública para entrar na privada, mantendo a coerência com a persona satírica que criou.
Legado e influência no jornalismo brasileiro
O Barão influenciou nomes como Sérgio Porto e Millôr Fernandes, além de gerações de cronistas e chargistas que consolidaram o humor político como instrumento de crítica social.
Nascido em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, em 1895, Apparício Torelly viveu perdas pessoais profundas e enfrentou perseguições políticas, mas nunca abandonou o humor como linguagem. Morreu em 1971, no Rio de Janeiro, deixando frases que seguem atuais, como “Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados”.
Em tempos de polarização, sua trajetória volta a ganhar relevância. O documentário reforça que o Barão de Itararé não apenas fez rir, mas ensinou que o humor pode ser ferramenta democrática, crítica e humanizadora.
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