ONU alerta para avanço de propaganda terrorista em redes sociais

Um novo relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) alerta para a rápida transformação da propaganda terrorista na internet. Segundo o Comitê Executivo de Contraterrorismo da ONU (CTED), grupos extremistas passaram a utilizar redes sociais, plataformas de jogos e outros ambientes digitais não apenas para divulgar mensagens, mas também para recrutar, radicalizar, arrecadar recursos e fortalecer suas estruturas.

O estudo, publicado em setembro, aponta que crianças e jovens estão entre os principais alvos dessa estratégia. Os grupos procuram explorar ambientes digitais frequentados por esse público e conduzi-lo, progressivamente, de plataformas abertas para comunidades mais fechadas e espaços com maior exposição a conteúdos extremistas.

Jogos entram no radar da ONU

Um dos principais alertas envolve o crescimento do uso de ecossistemas de jogos para recrutamento e formação de comunidades extremistas. A ONU aponta que grupos terroristas podem desenvolver jogos com temática violenta ou modificar conteúdos existentes para inserir narrativas extremistas em ambientes familiares aos jovens.

A preocupação é particularmente relevante na África, onde aproximadamente 350 milhões de pessoas jogam videogames, segundo estudo apoiado pela ONU sobre jogos e extremismo violento no continente. O relatório destaca que o crescimento acelerado desse mercado amplia também as possibilidades de exploração por grupos violentos.

Plataformas relacionadas ao universo dos games, como Discord, Twitch e Steam, também aparecem entre os ambientes que podem ser explorados para recrutamento e formação de comunidades. Um relatório anterior do CTED já havia identificado esses serviços como espaços utilizados por extremistas para estabelecer redes e disseminar ideologias.

Inteligência artificial 

A ONU também chama atenção para o uso crescente de inteligência artificial na propaganda extremista. A tecnologia pode facilitar a produção de conteúdos, adaptar mensagens para diferentes públicos, ampliar a comunicação em vários idiomas e aumentar a capacidade de recrutamento e arrecadação.

O CTED afirma que a propaganda se tornou mais descentralizada, adaptável e sofisticada, criando uma diferença cada vez maior entre a velocidade de adaptação dos grupos terroristas e a capacidade de governos e plataformas digitais de responder.

Conteúdos extremamente violentos também são utilizados como instrumento de propaganda. Segundo o levantamento, imagens de violência e outras produções destinadas a provocar choque podem aumentar o alcance das mensagens e contribuir para processos de radicalização.

Propaganda da estrutura terrorista

A principal conclusão do relatório é que a propaganda deixou de ser apenas uma ferramenta de comunicação. Ela passou a integrar a própria estrutura operacional de organizações terroristas, sendo utilizada para recrutamento, financiamento, planejamento, construção de comunidades e tentativa de criar uma imagem de autoridade.

O estudo cita a transformação promovida pelo Estado Islâmico, também conhecido como Daesh, que ajudou a consolidar modelos de propaganda digital mais descentralizados e multilíngues.

A ONU também alerta para a capacidade dessas organizações de adaptar suas mensagens conforme acontecimentos e prioridades regionais. Na África, por exemplo, o monitoramento de publicações associadas ao Daesh identificou aumento de referências a Moçambique e a ataques contra comunidades cristãs, ainda que a propaganda não represente necessariamente a situação operacional no terreno.

ONU cobra respostas 

Para o CTED, um dos maiores problemas está na velocidade com que a tecnologia evolui diante da capacidade limitada de governos e plataformas para identificar e interromper novas formas de propaganda terrorista.

O órgão defende respostas coordenadas entre governos, empresas de tecnologia e especialistas, com medidas capazes de enfrentar a propaganda como parte da infraestrutura operacional do terrorismo. Ao mesmo tempo, a ONU ressalta que ações de combate ao extremismo precisam respeitar os direitos humanos e o Estado de Direito.

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