Salvador vive nova onda de investimentos imobiliários e grandes negócios movimentam a orla

Salvador começa a apresentar sinais claros de uma nova fase de expansão do mercado imobiliário. Depois de anos em que grandes terrenos e imóveis estratégicos permaneceram sem utilização ou tiveram pouca movimentação, uma sequência de negociações de alto valor está recolocando áreas importantes da capital baiana no radar de incorporadoras e investidores.

O movimento chama atenção principalmente porque envolve capital privado e grandes ativos urbanos, muitos deles localizados próximos à orla. Em pouco tempo, Salvador registrou negócios que, somados, representam centenas de milhões de reais em operações imobiliárias.

O mais recente deles envolve o Motel Del Rey, localizado no Jardim Armação, que foi vendido por R$ 100 milhões, segundo informações divulgadas nesta semana. O empreendimento, tradicional na cidade e conhecido por suítes como a Gruta Azul, integra agora essa nova lista de grandes ativos que mudaram de mãos.

A localização do Del Rey é particularmente estratégica. O imóvel fica em uma região que vem passando por forte transformação urbana e está inserida em um eixo que conecta Armação, Boca do Rio, Pituaçu, Patamares, Piatã e Jaguaribe.

Antigo Centro de Convenções também entra no jogo

Outro negócio de grande dimensão aconteceu recentemente com o antigo Centro de Convenções da Bahia, em Jardim Armação. O imóvel foi arrematado em julho por R$ 138,487 milhões pela Pilar Incorporação e Construção Imobiliária, após anos de impasse sobre o destino da área.

O terreno possui aproximadamente 116,7 mil metros quadrados, descontada a área de preservação permanente. Pelo edital, o novo proprietário terá prazo para desmontar a estrutura existente e fazer a limpeza do terreno, preparando o espaço para uma nova utilização.

Ainda não há, portanto, um projeto definitivo publicamente detalhado que permita afirmar exatamente o que será construído no local. Mas o tamanho da área e sua localização colocam o terreno entre os espaços com maior potencial de transformação imobiliária da capital.

E há um aspecto simbólico nessa operação: uma área que passou anos sem cumprir a função para a qual foi originalmente criada volta a ter valor econômico e perspectiva de desenvolvimento através da iniciativa privada.

Quase R$ 100 milhões pela antiga sede dos Correios

Outro exemplo está na Pituba. A antiga sede dos Correios, na Avenida Paulo VI, foi arrematada pela Moura Dubeux por R$ 97,76 milhões, depois de uma longa sequência de tentativas de venda.

O terreno possui aproximadamente 34,7 mil metros quadrados, em uma das regiões mais valorizadas e consolidadas de Salvador. A área apresenta elevado potencial para desenvolvimento imobiliário, e a aquisição pela incorporadora abre caminho para um novo empreendimento residencial.

Ou seja: em vez de permanecer como um imóvel fechado e sem utilização econômica, a área deverá voltar a produzir atividade, investimento, construção e, posteriormente, novos negócios e empregos.

Hiperideal mostra como o varejo também está se transformando

Na outra ponta desse corredor imobiliário está Piatã.

O tradicional Hiperideal localizado na Avenida Otávio Mangabeira passa por uma transformação que demonstra uma tendência cada vez mais comum no mercado: um mesmo terreno passa a combinar varejo e desenvolvimento residencial.

O grupo anunciou um novo projeto no local, formado por duas torres residenciais independentes com vista para o mar, enquanto a área comercial também será modernizada. A proposta integra moradia, comércio, serviços e conveniência em um mesmo endereço.

É um modelo particularmente interessante para Salvador, onde terrenos próximos ao mar são cada vez mais escassos e valorizados.

Em vez de simplesmente manter uma área exclusivamente comercial, o proprietário consegue explorar diferentes vocações econômicas do terreno, criando um empreendimento imobiliário associado à atividade comercial.

A requalificação da orla ajuda a explicar o movimento

Não é coincidência que tantos desses investimentos estejam concentrados próximos ao litoral.

Nos últimos anos, Salvador passou por uma série de intervenções de requalificação da orla, melhorando espaços públicos, áreas de lazer, equipamentos esportivos, paisagismo, iluminação e infraestrutura.

Essa transformação muda a percepção de valor do território.

Quando uma região recebe melhores espaços públicos, novos equipamentos, restaurantes, supermercados, serviços e melhorias urbanas, ela se torna mais atrativa para quem deseja morar, investir ou empreender.

É exatamente esse efeito que pode ser observado no eixo entre Armação, Pituaçu, Patamares, Piatã e Jaguaribe.

O resultado é uma espécie de efeito dominó: a melhoria da infraestrutura aumenta a atratividade da região; a valorização dos terrenos estimula novos projetos; os novos projetos atraem moradores e consumidores; e esse novo público aumenta a demanda por comércio e serviços.

Mercado imobiliário baiano também mostra recuperação

Os grandes negócios não estão acontecendo isoladamente.

Os indicadores do setor apontam para uma recuperação consistente do mercado imobiliário baiano, especialmente em Salvador. O crescimento das vendas e dos lançamentos mostra que existe demanda para novos empreendimentos, inclusive em segmentos de maior padrão.

Isso é importante porque o mercado imobiliário funciona como uma cadeia econômica extensa.

Quando uma incorporadora compra um terreno por dezenas ou centenas de milhões de reais, o impacto não termina na aquisição. Depois vêm os projetos, licenciamentos, sondagens, demolições, terraplenagem, fundações, construção, instalações elétricas e hidráulicas, acabamento, paisagismo e comercialização.

São dezenas de segmentos envolvidos.

Emprego e renda sem depender de programa habitacional

Outro ponto que merece atenção é que estamos falando predominantemente de investimentos privados.

Não são projetos do Minha Casa Minha Vida, nem grandes obras financiadas diretamente pelo governo para construção de habitação popular.

São empresas privadas adquirindo ativos, assumindo riscos e apostando na capacidade de valorização de Salvador.

Isso pode representar uma importante fonte de geração de emprego e renda.

A construção civil é intensiva em mão de obra e movimenta desde trabalhadores diretamente empregados nos canteiros até engenheiros, arquitetos, corretores, fornecedores, transportadores, fabricantes de materiais, empresas de segurança, limpeza, manutenção e diversos prestadores de serviços.

Depois que os empreendimentos ficam prontos, surge uma segunda etapa de geração de empregos, especialmente em condomínios, comércio, supermercados, restaurantes, serviços e hotelaria.

Um novo ciclo para a orla de Salvador?

O conjunto dessas operações permite levantar uma hipótese bastante concreta: Salvador pode estar entrando em um novo ciclo de ocupação de grandes áreas urbanas.

O Del Rey foi vendido por R$ 100 milhões. O antigo Centro de Convenções, por R$ 138,4 milhões. A antiga sede dos Correios, por R$ 97,76 milhões. E o terreno do Hiperideal, em Piatã, está sendo transformado para receber duas torres residenciais.

São negócios diferentes, mas com uma característica em comum: grandes áreas que antes estavam subutilizadas ou tinham uma função que perdeu relevância estão sendo reposicionadas pelo mercado.

E existe ainda um potencial enorme na região do antigo Centro de Convenções.

A área possui localização privilegiada, proximidade com o mar, acesso por importantes vias e está inserida em uma região que já possui hotéis, comércio, serviços e equipamentos de lazer. Caso seja aprovado um projeto de grande porte, a transformação daquele terreno poderá produzir um impacto significativo sobre todo o entorno.

É possível imaginar o surgimento de um novo polo residencial, comercial, hoteleiro ou de uso misto — embora qualquer definição sobre o projeto dependa das propostas da incorporadora e das aprovações urbanísticas.

O mercado está olhando para Salvador novamente

O que esses negócios mostram, acima de tudo, é uma mudança de percepção.

Durante anos, Salvador conviveu com grandes áreas estratégicas sem utilização adequada. Agora, investidores estão pagando valores expressivos para adquirir esses terrenos porque enxergam potencial de retorno.

E isso pode ser apenas o começo.

A combinação entre requalificação urbana, valorização da orla, escassez de terrenos bem localizados, demanda por imóveis de padrão elevado e entrada de grandes incorporadoras pode acelerar a transformação de regiões inteiras da capital.

O desafio será acompanhar esse crescimento com planejamento urbano, mobilidade, saneamento, infraestrutura e preservação ambiental.

Mas, do ponto de vista econômico, o sinal é positivo: o dinheiro privado voltou a olhar para Salvador.

E quando grandes empresas começam a disputar terrenos estratégicos, adquirir imóveis por dezenas ou centenas de milhões de reais e anunciar novos empreendimentos, não se movimenta apenas o mercado imobiliário.

Movimentam-se também a construção civil, o comércio, os serviços, a arrecadação, o emprego e a renda.

Salvador pode estar, portanto, diante de uma nova transformação de sua paisagem urbana — e a orla, mais uma vez, aparece como um dos principais motores desse processo.

Fonte: Clique aqui

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