Gilmar Mendes diz que crise do Banco Master “está na Faria Lima” e critica desgaste do STF

O ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, afirmou que a crise envolvendo o Banco Master não pode ser atribuída diretamente ao STF e apontou falhas sistêmicas do mercado financeiro e dos órgãos de fiscalização como foco central do problema.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o magistrado declarou que o escândalo foi “endereçado indevidamente” à Suprema Corte após a revelação de vínculos entre ministros e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master.

“A crise do Master não está na Praça dos Três Poderes, está na Faria Lima”, afirmou Gilmar, em referência ao principal centro financeiro do país.

Segundo o ministro, houve falhas graves de fiscalização por parte da Comissão de Valores Mobiliários e do Banco Central do Brasil. Ele destacou que a CVM teria permanecido por mais de um ano com cargos vagos na diretoria, prejudicando a supervisão do sistema financeiro.

Gilmar diz que relação de ministros com Vorcaro deve ser investigada

Apesar de defender que o problema é sistêmico, Gilmar Mendes afirmou que eventuais relações entre integrantes do STF e Daniel Vorcaro precisam ser apuradas pelas autoridades competentes.

O ministro comentou investigações envolvendo o ministro Dias Toffoli e o ministro Alexandre de Moraes, que tiveram nomes associados ao caso após revelações sobre contatos e contratos ligados ao empresário.

“Isso certamente está sendo investigado e as autoridades competentes devem fazê-lo”, declarou.

Gilmar ponderou, contudo, que possuir relações bancárias ou financeiras com instituições privadas não configura automaticamente responsabilidade criminal.

Rejeição de Jorge Messias foi “puramente política”

Durante a entrevista, Gilmar Mendes também comentou a rejeição do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, para uma vaga no STF pelo Senado Federal.

Para o magistrado, o episódio ocorreu por falhas de articulação política do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT-SP) e não por deficiência técnica do indicado.

“Não foi por falta de qualificação. Foi uma questão puramente política”, afirmou.

O ministro ainda avaliou que o governo federal enfrenta dificuldades inéditas de governabilidade no Congresso Nacional desde a redemocratização.

“O governo Lula é um governo de minoria”, disse.

Ministro defende continuidade do inquérito das fake news

Gilmar Mendes também saiu em defesa da manutenção do inquérito das fake news, aberto no STF em 2019 e frequentemente criticado por setores da oposição e juristas.

Segundo ele, o ambiente político radicalizado e o avanço da polarização justificam a continuidade das investigações, especialmente diante do cenário eleitoral de 2026.

“Mantido o ambiente de radicalismo, e tudo indica que vai ser mantido, o inquérito das fake news é necessário”, declarou.

A fala ocorre em meio às discussões internas no STF sobre eventual encerramento da investigação, tema debatido pelo presidente da Corte, Edson Fachin, com Alexandre de Moraes.

Código de ética gera desconforto interno no STF

Gilmar também comentou a discussão sobre um possível código de ética para ministros do Supremo, proposta defendida por Edson Fachin após o agravamento das críticas públicas à Corte.

Embora afirme não ser contrário à medida, o decano avaliou que o debate ocorreu em momento inadequado e acabou ampliando desconfortos internos entre ministros.

“O código de ética gerou um ambiente de certa desinteligência”, afirmou.

O magistrado defendeu que qualquer mudança institucional seja construída por consenso dentro do tribunal.

“Gilmarpalooza” volta ao centro das críticas

Outro tema abordado pelo ministro foi o Fórum de Lisboa, evento jurídico internacional organizado anualmente por Gilmar Mendes em Portugal e conhecido nos bastidores políticos como “Gilmarpalooza”.

O encontro voltou a ser alvo de críticas após reportagens apontarem a presença frequente de empresários, políticos e autoridades investigadas em eventos paralelos ligados ao fórum.

Gilmar rebateu as críticas e afirmou que os organizadores não têm controle sobre quem participa das atividades realizadas fora da programação oficial.

“Não temos nenhum controle sobre isso”, declarou.

Segundo o ministro, a edição deste ano deve ser uma das maiores já realizadas, com mais de 470 palestrantes confirmados.

Ministro critica uso excessivo de prisões preventivas

Ao comentar a prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, Gilmar Mendes também demonstrou preocupação com o que classificou como “autoritarismo penal-judicial”.

O ministro criticou o uso de prisões preventivas como forma indireta de estimular delações premiadas.

“Não gosto da ideia de alguém dizer, agora você vai ter um regime privilegiado porque prometeu delatar”, afirmou.

Gilmar Mendes é atualmente o decano do STF e integra a Corte desde 2002, quando foi indicado pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.

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